A investigação sobre a corrupção no INSS, que lamentavelmente já se arrasta por décadas, revelou uma associação criminosa entre o Sindicato Nacional dos Aposentados (Sindinap) e o Banco BMG, envolvendo fraudes em empréstimos consignados. O relatório aponta um padrão de irregularidades que teve seu auge entre 2019 e 2021, período em que houve uma explosão nas filiações e descontos associativos. Embora a corrupção não dependa de governo para acontecer, o aumento expressivo das filiações coincidiu com uma parceria entre o Sindinap e o BMG.

Os dados mostram que a maioria das associações ao sindicato era feita por meio de um empréstimo consignado no Banco BMG, configurando em muitos casos uma venda casada. Em janeiro de 2020, foram registradas 136 filiações no balcão do sindicato, contra 105 via BMG. Já em fevereiro, o número de adesões pelo banco disparou para 626, enquanto o balcão registrou 228. Em junho, a discrepância se tornou ainda maior: o BMG contabilizou 2.002 filiações, contra apenas sete feitas diretamente no sindicato. Ainda que as maiores adesões tenham ocorrido durante o governo Lula, os atos de corrupção via BMG começaram no governo Bolsonaro. Ao todo, o período de Lula registrou mais de 120 mil novos associados.

A investigação também revelou que três em cada quatro aposentados afirmaram não ter autorizado os descontos feitos em seus benefícios. Mesmo havendo fichas de associação e termos de autorização assinados, a Controladoria-Geral da União (CGU) constatou que muitos desses documentos eram inidôneos. Diversas reclamações foram registradas em todo o país. Em Campo Largo, no Paraná, por exemplo, um aposentado relatou que o desconto indevido comprometia sua renda, dificultando até a compra de remédios.

Além das fraudes nas filiações, a CGU identificou irregularidades internas graves no sindicato. Uma funcionária, Ana Aparecida de Carvalho Santos, foi acusada de falsificar retroativamente um termo de adesão em 2024, datando-o como se fosse de 2023. A procuradora jurídica do Sindinap, Tônia, afirmou não ter conhecimento do caso e negou que tenha havido falsificação. O órgão de controle ainda descobriu que pelo menos 24 menores de idade assinaram termos de adesão, o que é considerado irregular pela própria assessoria jurídica da entidade.

Outro ponto que chama atenção é o vínculo político e familiar dentro da diretoria do sindicato. José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico e irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fazia parte da direção da entidade. Apesar disso, o presidente do Sindinap, Milton Cavalo, teria assinado um documento ao INSS, durante o Acordo Coletivo de Trabalho (ACT), afirmando que não havia parentes do presidente da República entre os dirigentes.

Em nota, a assessoria jurídica do Sindinap, representada por Tônia, declarou que não toma decisões em nome do sindicato e que desconhecia diversas informações apresentadas pela CGU, incluindo o envolvimento de menores. Ela também questionou a veracidade dos dados divulgados pelo órgão e afirmou ter feito uma denúncia interna sobre irregularidades em 2023. Segundo Tônia, uma auditoria realizada em 2024 teria confirmado a regularidade da documentação dos associados, negando ter recuado na denúncia inicial.

O caso segue sob apuração da CGU e de outros órgãos de controle, e reforça a urgência de medidas mais rígidas para coibir fraudes que atingem diretamente aposentados e pensionistas em todo o país.

Foto: Reprodução / TV Senado

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